Há livros que a gente relê para confirmar quem somos; outros, para sermos desmentidos. Dom Casmurro pertence ao segundo time. Cada releitura entrega um Bentinho diferente — e, pior, entrega um leitor diferente.
Em 2026, com o julgamento público migrando para as redes, o romance ganha uma camada nova: Bentinho é o primeiro influencer da literatura brasileira, montando um feed inteiro para condenar Capitu sem nunca apresentar a defesa.
O narrador em quem não se pode confiar
Machado não esconde o jogo: o narrador é advogado de si mesmo. A genialidade está em nos fazer cúmplices da condenação antes de notarmos que nunca vimos o processo completo.
"Capitu foi condenada por um júri que nunca leu o processo inteiro."
Reler Dom Casmurro hoje é um exercício de humildade crítica: perceber quantas vezes absolvemos ou condenamos com metade das páginas lidas. Talvez seja esse o verdadeiro tema do livro — não o adultério, mas a fabricação da certeza.